Nota de falecimento – Professora Sylvia Leser de Mello

A Psicologia Social brasileira amanheceu mais triste nessa segunda-feira após feriados de final de ano e início de outro, com a notícia do falecimento da Professora Dra. Sylvia Leser de Mello, ontem, 3 de janeiro de 2021, em São Paulo. Incansável defensora dos direitos humanos, Sylvia atuou em frentes diversas que tinham como eixo comum a profunda fé no humano, como ela mesma dizia, sem, contudo, deixar de denunciar com afinco as faces perversas das iniquidades. Em tempos difíceis como os que vivemos, essa admiradora de Hannah Arendt conseguia continuar nos inspirando na luta por justiça social e uma vida mais digna para todes. Vinda da Filosofia, Sylvia, em sua tese de Doutorado, em plena ditadura militar, pesquisou a formação profissional em Psicologia e, naquele texto preciso, identificava as ciladas em torno do conceito de “normalidade”, que a Psicologia deve enfrentar com vigor, sob pena de perpetuar sua condição adaptativa, reguladora, ortopédica – diria Foucault. No prefácio escrito para seu livro Trabalho e Sobrevivência, Paulo Freire ressalta a belezura do texto de Sylvia, em seu estilo preciso, sólido, engajado, emocionado em muitas passagens. A criação do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade, no Instituto de Psicologia-USP, do qual foi diretora, consolidou um eixo de seus trabalhos que há muito vinha sendo explorado ao tecer análises críticas sobre os modelos burgueses tomados como naturais, como é o caso da família nuclear, monogâmica, branca, cis e heterossexual, que até hoje é preconizada, por muitos, como a legítima, “saudável” e moralmente aceitável. Durante anos trabalhou arduamente na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP, da qual era uma entusiasta, onde formou trabalhadores e estudantes orientada pelos princípios da Economia Solidária, em que o trabalho construído em bases igualitárias é um dos principais pilares. Em seus cursos, elaborava com precisão a crítica aos modos de dominação/exploração/opressão e ao cientificismo que lhes é conveniente/conivente. A paixão pela literatura  era compartilhada por ela, também, como forma de adentrar o mundo, a realidade mundana, a vida de mulheres e homens comuns. Inspiradora em sua coragem, sua delicadeza, sua intolerância para com as violências de todos os tipos, Sylvia Leser de Mello fez história. Deixa sua marca inegável em nós que com ela tivemos o privilégio de conviver, assim como naquelas e naqueles que, por meio de sua obra, são convocados ao enfrentamento das injustiças de todos os tipos e à produção de uma Psicologia crítica comprometida social e politicamente. Sylvia Leser de Mello, presente!

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