Sobre a ABPP

SOBRE A HISTÓRIA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA

 Uma nova interlocutora no campo da Psicologia no Brasil: A Sociedade[1] Brasileira de Psicologia Política[2]

 Leoncio Camino

Professor do Departamento de Psicologia da UFPb

Primeiro Presidente da Associação Brasileira de Psicologia Política

Um grupo de pesquisadores na área da Psicologia Política decidiu, neste ano, fundar a Sociedade Brasileira de Psicologia Política. Para apresentar melhor esta nova interlocutora pensamos que devemos responder a três perguntas clássicas: o quê?; o porque?; e o para quê?

Comecemos pelo o quê, definindo o que é a Psicologia Política como uma área da Psicologia que estuda o comportamento político. Este tipo de definição, pela sua amplitude, termina explicitando pouca coisa. De fato, é conveniente, num primeiro momento, distinguir entre Psicologia Política e Psicologia da Política. Na primeira expressão indica-se que a psicologia não se encontra à margem da política; afirma-se que a própria Psicologia contém implícita ou explicitamente pressupostos ideológicos. Pelo contrário, na expressão Psicologia da Política, considera-se ambos termos como independentes e/ou diferentes; significa uma disciplina que consiste na aplicação do conhecimento psicológico ao estudo dos fenômenos políticos.

Mas, essa distinção radicalizada pode levar a extremos. Por um lado, como aconteceu na América Latina nas décadas de 1970 e 1980, quando as opções políticas de alguns psicólogos talvez tenham sido colocadas com extrema relevância em detrimento do desenvolvimento teórico e analítico do conhecimento científico. Por outro lado, como vem acontecendo na Psicologia Política contemporânea, os conhecimentos da psicologia, considerados como objetivos e livres de valores, são aplicados sem crítica na análise dos fenômenos políticos.

No primeiro caso, corre-se o risco de “politizar a psicologia”, ‘ou seja, de transformá-la em puro instrumento da luta política. No segundo caso, “psicologiza-se” a política, ao substituir-se dimensões políticas por conceitos e variáveis psicológicas consideradas como universais e totalmente descontexualizadas das circunstâncias históricas e políticas.

Mas a distinção, se não radicalizada, pode ser útil, não para classificar as teorias entre más e boas, mas para sinalizar uma das possíveis dimensões que ajudam a situar as diversas abordagens utilizadas na Psicologia Política. De fato, no interior, tanto da psicologia como no conjunto de ciências humanas, desenvolvem-se diversas concepções sobre o Homem e a Sociedade e sobre as relações entre ambos. Não existem critérios preestabelecidos para avaliar nem a validade científica de cada abordagem, nem sua capacidade de melhorar as condições de vida psíquica, cultural e política da humanidade. Esta impossibilidade decorre do fato de que tanto a Psicologia como as Ciências Humanas fazem parte da arena onde se desenvolvem as lutas ideológicas, sociais e políticas.

Para poder responder ao porque da necessidade de uma Sociedade de Psicologia Politica deve-se ter em conta a existência de diversas formas de abordagem da política e a necessidade de confrontar essas perspectivas. É por esta razão que no momento de construção da Sociedade Brasileira de Psicologia Política não nos parece útil colocar uma definição a priori do que entendemos por Psicologia Política mas sim construir um campo democrático e competente de debates que permitam estabelecer um processo fecundo de debate dos significados possíveis da Psicologia Política. Mas isto não quer dizer que a SBPP se apresente como um campo neutro de debates. Pelo contrário, no decurso de sua constituição, como veremos mais a frente, a SBPP tem aos poucos construído alguns pressupostos fundamentais que guiam a construção deste campo de estudo. Do ponto de vista da Psicologia, nada parece mais legítimo, que a reivindicação de constituir o comportamento político, como um campo de estudo específico desta. De fato, nesta perspectiva, diversos conceitos psicológicos, sejam motivacionais sejam cognitivos, têm sido utilizados para explicar o comportamento político do indivíduo. Tem-se levantado críticas a esta abordagem pelo individualismo e reducionismo implícitos.

Uma outra perspectiva propõe-se iniciar a análise pelo fenômeno político e não pelos aspectos psicológicos. Todas as concepções do político fazem menção às relações de poder. Aliás, estas relações não se esgotam no confronto físico, mas sempre possuem um aspecto simbólico. Poder-se-ia afirmar que as relações de poder não só se desenvolvem no nível simbólico, mas que elas também participam da construção do meio simbólico onde se desenvolvem todas as formas de relação social, particularmente as relações políticas. E ainda mais, as relações de poder são a chave essencial para entender a construção de outros símbolos essenciais nas relações sociais quotidianas. De fato, no Brasil, um grupo de psicólogos pesquisadores vêm estudando os aspectos subjetivos dos fenômenos políticos, mas sendo conscientes que os conceitos desse saber, fazem parte, da arena política.

Podemos localizar a primeira articulação deste grupo em 1989, quando formou, no II Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico organizado pela Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), um Grupo de Trabalho em Psicologia dos Movimentos Sociais. Pelo fato do cenário político encontrar-se marcado pelo surgimento de vários movimentos sociais, estes se constituíram no tema central do interesse dos estudiosos da Psicologia Política. Os pesquisadores deste grupo procuraram sintetizar as duas perspectivas anteriormente mencionadas, considerando a Psicologia Política como o estudo dos aspectos subjetivos dos fenômenos políticos, postura que tem em conta que os conceitos utilizados fazem parte, de alguma maneira da arena política.

Assim, foi durante os anos 90, caracterizados pelos aspectos institucionais da transição democrática, que os membros deste grupo de estudo, cada um na sua própria perspectiva, dedicaram-se a analisar a maneira como os cidadãos participam do processo de transição democrática e como se apropriam das diversas noções políticas que circulam na sociedade. Nesta direção, com uma nova denominação que incluía os novos interesses, o Grupo de Trabalho em Comportamento Político, instituiu um debate sobre o processo de Socialização Política durante o VI Simpósio cujos resultados foram publicados, em Setembro de 1996, no número 13 do lº Volume de Coletâneas da ANPEPP. Nesse debate constatou-se que no Brasil, apesar dos grupos que se dedicam ao estudo da Psicologia Política terem realizado algumas iniciativas em comum, não tinham desenvolvido ainda um referencial teórico geral que permitisse um verdadeiro intercâmbio científico.

Retomaram-se, durante os VII e VIII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico (em 1998 e 2000, respectivamente), os temas de Psicologia Política que estavam sendo objeto de estudo no Brasil, a fim de iniciar, em um certo sentido, a elaboração do estado da arte da área de Psicologia Política no país e de esclarecer as perspectivas utilizadas pelos diversos pesquisadores. Após todas estas experiências desenvolveu-se a convicção, entre os participantes, que o Grupo de Trabalho em Comportamento Político não deveria limitar-se a ser um espaço de debates sobre Psicologia Política, nos congressos da ANPEPP, mas deveria converter-se, realmente num fórum que tanto facilite o intercâmbio científico quanto ajude a expansão do ensino e pesquisa na área da Psicologia Política. Estas ideias foram debatidas no I Seminário Nacional de Psicologia Política que se realizou em São Paulo do 29 ao 31 de Maio de 2000.

De fato, apesar de sua importância, a Psicologia Política limita-se, no Brasil, a ser um campo de pesquisa em alguns poucos programas de pós-graduação. Embora este espaço deva ser mantido e fortalecido através de nossa presença na ANPEPP, iniciou-se no I Seminário Nacional de Psicologia Política o processo de formação de uma Sociedade mais ampla que se proponha facilitar o intercâmbio cientifico no Brasil entre pesquisadores na área seja através da realização de encontros científicos como na coordenação de uma revista científica dedicada especificamente aos temas da Psicologia Política.

Pretende-se também, através da Sociedade Brasileira de Psicologia Política estimular o intercâmbio científico com pesquisadores de outros países. De fato, no mês de Julho estaremos participando da 24ª Reunião Anual da Sociedade Internacional de Psicologia Política (ISPP) que se realizará no México. Além de institucionalizar nossa relação com a ISPP pensamos estabelecer formas concretas de intercâmbio com os psicólogos políticos da América Latina. Finalmente, pretende-se, com a criação da Sociedade Brasileira de Psicologia Política trabalhar na expansão do ensino da Psicologia Política nos cursos de graduação.

 

A Psicologia Política no Brasil: Contribuições, a ABPP e a Revista Psicologia Política[3]

 Alessandro Soares da Silva

Professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 As contribuições de Silvia Lane, Leoncio Camino e Salvador Sandoval

Como bem se pode notar, neste artigo não pretendemos fazer uma análise exaustiva de cada um destes autores, mas sim pontuar elementos do trabalho de quem fez a Psicologia Política acontecer no Brasil. Nesse sentido, destacamos a atividade intelectual e militante de Silvia Lane, Leoncio Camino e Salvador Sandoval. Cada um a seu modo e desde lugares teóricos diferentes atuaram de modo a consolidar diferentes formas de pensar e fazer Psicologia Política, formando, de certa maneira, distintas “escolas” de pensamento e prática psicopolítica.

A partir da produção intelectual militante de Silvia Lane se construiu no Brasil uma Psicologia comprometida social e politicamente, inclusive tendo efeitos sob determinadas correntes clínicas de corte marxista. Ela foi uma presença marcante nas Psicologias Social e Comunitária Brasileiras. Tendo produzido importantes trabalhos que versavam o tema dos processos de conscientização política, ela também influenciou a psicologia política a partir de uma leitura psicossocial da realidade. A esse respeito escreveram Helerina Novo e Maria de Fátima Quintal de Freitas (2007):

Campos como a Psicologia Social, a Psicologia (Social) Comunitária e a Psicologia Política – no Brasil e na América Latina – passam a ter um significado único e singular quando surgem e se fortalecem tendo o matiz e a influência de Sílvia Lane. Ela sempre foi uma das maiores defensoras da Psicologia em nosso país e continente. Teve sempre a capacidade de aglutinar, mesmo quando era implacavelmente crítica, mas sempre respeitadora e, por isto mesmo, soube trazer os adversários para uma luta pela profissão e pela produção ligada à nossa realidade. Já nos anos 60 e 70, Sílvia Lane falava do caráter político da Psicologia e, em certa medida, ela foi a madrinha da Psicologia Política que vai se fortalecendo, também, no Brasil, já em meados dos anos 80 dentro desta vertente de politização da consciência, como se referia.

Em certa medida a Psicologia Política Brasileira foi gestada em paralelo com a Psicologia Social, visto que nomes importantes que atuaram na fundação da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) durante os anos de 1980 também contribuíram para a produção de uma Psicologia Política de corte psicossocial. Neste cenário é importante a contribuição de Sílvia Lane que, além de co-fundar a ABRAPSO, influenciou para a politização da ação de psicólogas/os e para uma prática psicossocial mais interdisciplinar. Destacamos que foi Silvia que introduziu no Programa de Psicologia Social da PUCSP a disciplina de Comportamento Político e conduziu a contratação, em 1978, do professor Salvador Sandoval para ministrá-la e orientar pesquisas nesse campo. A chegada de Sandoval ao programa vinha reforçar os esforços formativos de Silvia no campo da Psicologia Social Comunitária que era socialmente comprometida.

A insistência de Silvia em construir uma práxis que realmente se preocupava com um “fazer psi” que rompia com a ideia de neutralidade e que assumia a centralidade do exercício cidadão expresso no compromisso social, foi a base de uma Psicologia Política comprometida com a realidade e que trilhava a perspectiva libertadora inaugurada por Ignácio Martín-Baró (1985, 1991). Daí nasce uma psicologia social politicamente engajada. Este fazer de Silvia encontrava ressonância em fazeres de outros psicólogos sociais, politólogos e sociólogos latinoamericanos. A escola de Silvia Lane faz coro não só com o pensamento de Ignácio Martín-Baró (El Salvador), mas também com as proposições de Ignácio Dobles (Costa Rica) e Maritza Montero (Venezuela).

A partir desta visão “Libertadora” que Martín-Baró inaugura consolida-se em toda latinoamérica a Psicologia da Libertação, a qual se confunde muitas vezes em seu fazer com a Psicologia Social Comunitária inaugurada por Silvia Lane. Mas esse fazer politicamente comprometido vai gerar, por uma parte, uma nova forma de fazer Psicologia Social e, por outra, uma linha de pensar e agir no campo da Psicologia Política. Nesse sentido, alguns (Furtado, 2000), inclusive chegam a perder de vista os múltiplos sentidos dos fazeres de Silvia Lane, assumindo posturas unidirecionais de suas práticas, inclusive negando a possibilidade de se pensar numa Psicologia Política. Mas de fato o que importa é que não é suficiente uma psicologia comprometida para que se faça Psicologia Política. E Silvia o sabia, a ponto de haver sido Fundadora Emérita da Sociedade Brasileira de Psicologia Política ao lado de Maritza Montero e de Leoncio Camino, seu primeiro presidente, e de Salvador Sandoval, criador do primeiro grupo de pesquisa brasileiro em Psicologia Política. Foi a partir deste grupo, criado com o apoio de Silvia Lane, que se iniciaram a Sociedade e a Revista Psicologia Política, ambas uma derivação do I Simpósio Nacional de Psicologia Política ocorrido em maio de 2000 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e organizado pelo Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais desta instituição.

Sandoval foi fundador e Editor da Revista Psicologia Política (juntamente com Marco Aurelio M. Prado, e um grupo de orientandos), a qual teve seu primeiro número organizado a partir das conferências de quem falou no primeiro Simpósio. Nessa linha, é claro que a Psicologia Política não é o mesmo que a politização da Psicologia nem a Psicologização da Política. A diferença entre estes posicionamentos e o que pretende a Psicologia Política enquanto campo de conhecimento está em não entender a psicologia política como mero processo de politização de práticas psi, mas na produção de um campo de estudos científicos nascidos da interação de diversos campos do saber, principalmente da Política e da Psicologia (Silva, 2012).

Mas outro elemento que contribuiu consideravelmente para o desenvolvimento inicial da Psicologia Política Brasileira foi a parceria estabelecida entre os grupos de pesquisa coordenados por Salvador Sandoval (NUPMOS) e por Leoncio Camino (Grupo de Pesquisa em Comportamento Político – GPCP). Ambos nutriam seus grupos de pesquisa com seus estudantes de graduação e pós-graduação. Contudo, como na UFPb não houve por muito tempo um programa stricto sensu com o nível de doutorado em Psicologia, muitos dos estudantes de Leoncio migraram a São Paulo no intuito de continuar sua formação. Com essa parceria, eles formaram uma parcela significativa de pesquisadores(as) que viriam a criar seus próprios grupos de pesquisa com enfoques psicopolíticos.

A colaboração entre eles e seus/suas estudantes contribuiu para que a Psicologia Política fosse sempre um eixo de trabalho nos encontros da ABRAPSO. Também desta parceria surgiu o atual grupo de trabalho em Psicologia Política que se reúne na Associação Nacional de Pesquisa e Programas em Psicologia – ANPPEP.

Se, como dissemos, Silvia Lane trilha as sendas de um perspectiva de leitura marcada pelo compromisso social de quem pesquisa e faz Psicologia Política e de corte psicossocial, podemos dizer que as escolas de Leoncio Camino e Salvador Sandoval seguem caminhos que, epistemologicamente guardam diferenças. Leoncio, como bem demostram suas publicações, busca construir uma Psicologia Política de corte psicossociológico. E isso se expressa de modo claro na obra organizada por Ana Raquel Rosas Torres, Marcus Eugênio Lima, e Joseli da Costa (2005) intitulada “A Psicologia Política na Perspectiva Psicossociológica: O estudo das Atividades Políticas” lançado como parte das comemorações dos 25 anos do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político da UFPB coordenado por Camino.

A marca das preocupações de Leoncio Camino no campo da Psicologia Política foram enfrentadas a partir não da leitura mais habitual da Psicologia Social, mas sim da Psicossociologia, o que não é uma diferença menor. Em certa medida, podemos dizer que a psicossociologia pode ser observada por alguns como um corte mais sociológico e menos individualista (portanto mais coletivista) da Psicologia Social. Fenômenos e atores coletivos são o centro da preocupação investigativa de quem se alinha a esta perspectiva. Assim greves, sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais são alguns dos interesses recorrentes desse grupo. Aqui temos um elemento importante que faz com que o encontro entre psicologia (psicossociologia) e política (comportamento político) gere uma forma bastante recorrente no Brasil de pensar a Psicologia política, e, de modo particular, as questões associadas mais vivamente ao campo de estudos do comportamento político.

No caso dos pesquisadores formados pelo Núcleo de Pesquisa em Psicologia Política e Movimentos Sociais coordenado por Salvador Sandoval, a perspectiva teórico-metodológica se mostra mais afeita a pensar a Psicologia Política como campo Interdisciplinar. As bases principais deste campo estariam na Política, História, Sociologia e Psicologia Social, sendo as leituras dos fenômenos políticos marcadas por elementos fortemente relacionados com as ciências políticas. Desta feita, o corte politológico dos fenômenos subjetivos é um traço mais radical de seus estudos no instante em que o político e a política sempre estão em relevo nas análises feitas nesse grupo.

 Dos Grupos de Trabalho da ANPEPP à ABPP

A criação da Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP) em 2000 definiu elementos que têm possibilitado que a Psicologia Política seja reconhecida no país; ela também tem proporcionado um elo entre aquelas pessoas que desejam constituir grupos de investigação em Psicologia Política e nem sempre encontravam o apoio necessário para seguir com esse propósito adiante. É fato que, desde muito, se buscavam aglutinar esforços para a criação de um espaço institucional que congregasse os(as) estudiosos(as) em/da Psicologia Política. Um exemplo importante destes esforços foi a criação do Grupo de Trabalho (GT) sobre Psicologia dos Movimentos Sociais, quando da criação da Associação Nacional de Programas e Pesquisa em Psicologia (ANPPEP), em 1981. Nessa ocasião, buscou-se criar um GT que possibilitasse o intercâmbio entre profissionais comprometidos com temas cotidianos ligados à política e, inicialmente, aos movimentos sociais de modo particular.

Retomar, ainda que brevemente, a trajetória do GT é importante, pois, por meio dele, foi possível costurar redes que permitiram chegar à criação da ABPP; isso também nos permite pensar a diversidade de grupos que vêm surgindo. Assim, é importante dizer que ele passou por algumas mudanças, de modo a ajustar os elementos que seriam constitutivos de uma identidade de grupo. Muitas das pessoas que estiveram nesse GT hoje não participam mais, mas continuam produzindo seus trabalhos no âmbito da Psicologia Política. Isso ocorre, porque os GTs são essencialmente reflexos de redes e redes se sobrepõem.

Do ponto de vista da cronologia, o GT apresentou-se inicialmente com a designação Psicologia dos Movimentos Sociais, durante os três primeiros simpósios da ANPPEP (1988, 1989 e 1990). Nos dois primeiros anos, quem o coordenou foi o professor Camino (UFPB) e, em 1990, o professor Sandoval (PUC-SP). Inicialmente, o GT teve como agentes aglutinadores desse processo os professores Leoncio Camino, Salvador Sandoval, Pedrinho Guareschi (PUC-RS), Maria Alice da Silva Leme (USP), Lidio Souza (UFES) entre outros.

Em 1992, o grupo não se reuniu sob esse nome e seus coordenadores integraram o GT A Pesquisa Interdisciplinar, coordenado por David W. Carraher (UFPE). Nos simpósios de 1994 e 1996, o grupo passou a chamar-se Psicologia Política e Movimentos Sociais, mesmo nome do grupo de pesquisa liderado pelo professor Sandoval na PUC-SP. No ano de 1994, a coordenação esteve a cargo de Salvador Sandoval e, no simpósio seguinte (1996), Sandoval e Camino dividiram a atividade de coordenação. Mas, em 1998, se operou uma nova mudança. O GT passou a chamar-se Comportamento Político, nome que permaneceu até 2006.

Nos simpósios VII (1998) e VIII (2000), o GT esteve a cargo de Leoncio Camino, e o GT do IX simpósio (2002), a cargo de Salvador Sandoval. Para o ano de 2004, não encontramos informações sobre o grupo, mas, aparentemente, ele ocorreu sob a coordenação do professor Cornelis Johannes van Stralen (UFMG). Desde essa oportunidade, é ele que tem presidido o GT e foi ele que coordenou a última mudança do nome do GT para Psicologia Política. Esta ocorreu em 2008, para adequá-lo à existência da ABPP, associação à qual todos eram filiados.

Sendo esse o GT mais antigo em vigência na ANPPEP (apesar da mudança de nomes, manteve coerência com o próprio campo em toda a sua trajetória), é natural que ele agregue algumas das forças políticas nacionais que atuaram na criação da Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP). A ABPP foi fundada em 10 de dezembro de 2000, na Escola de Sociologia e Política (ESP), na cidade de São Paulo. Na ocasião, reuniram-se, naquela que foi a primeira escola livre de Sociologia da América Latina (1934), os(as) pesquisadores(as) que, na ocasião, representavam diversas instituições: Alessandro Soares da Silva, Márcia Prezotti Palassi, Soraia Ansara, Zartú Giglio e Pedro de Oliveira Filho, membros do Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), liderado por Salvador Antonio Mireles Sandoval; Leoncio Camino Larrain, líder do Núcleo de Estudos sobre Comportamento Político da Universidade Federal da Paraíba (UFPb) e pesquisadores isolados, como Marco Aurélio Máximo Prado, à época na Universidade São Marcos (UniMarco), e Maria Palmira da Silva, docente da escola anfitriã, ESP.

O número de presentes naquela reunião poderia ter sido maior, visto o número de convidados. Manifestaram-se, por correio eletrônico, favoravelmente à criação da associação importantes pesquisadores como Louise Llullier, líder do Laboratório de Comportamento Político da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Cornelis Johannes van Stralen e Vanessa de Andrade Barros, líderes de um grupo não formal de Psicologia Política existente na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Karin von Smigay, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Telma Regina de Paula Souza, da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP); Maria Aparecida Morgado, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT); Maria de Fátima Quintal de Freitas, Universidade Federal do Paraná (UFPR); Maria da Graça Jacques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Pedrinho Guareschi, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS); Celso Zonta, da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Joseli Bastos, membro do grupo liderado pelo professor Leoncio Camino.

Essa reunião que resultou na criação da ABPP surgiu quando, após havermos organizado o I Simpósio Nacional de Psicologia Política, em maio de 2000, percebemos que há muito havia um desejo para o estabelecimento desse espaço institucional. Durante o evento, buscamos propositadamente incentivar os presentes a pensar um encontro. Juntamente com os pesquisadores Salvador Sandoval e Marco Aurélio M. Prado, levamos adiante a iniciativa de convocar a reunião de dezembro de 2000.

Muitas eram as ações que ocorreram nos anos de 1980 e 1990 e que levavam àquela reunião, na qual se decidiu definitivamente a criação, não só da associação, mas também da Revista Psicologia Política, como veículo oficial da associação. Inicialmente, a associação foi presidida, entre os anos de 2000 e 2002, por Leoncio Camino (UFPB), seguido de Salvador Sandoval (PUC-SP), entre 2002 e 2004; Cornelis Johannes van Stralen (UFMG), entre os anos de 2004 e 2008, e Marco Aurélio Máximo Prado (UFMG), entre 2008 e 2011. Atualmente, ela está, mais uma vez, sob a presidência de Salvador Sandoval. A Secretaria Geral da associação foi comandada, nessas distintas diretorias, por Louise Llullier (UFSC), Marco Aurélio Máximo Prado (UFMG), Vanessa Barros (UFMG), Marcos Ribeiro Mesquita (UFAL) e Cornelis Johannes van Stralen (UFMG).

No que tange à regionalidade das representações, a participação de Minas Gerais e de São Paulo têm sido decisivas para a consolidação das atividades da ABPP. No entanto, a participação das demais regiões, e em especial da região sul, têm crescido.

Os simpósios da ABPP ocorreram em São Paulo – SP, na PUC-SP com o tema A Psicologia Política no Brasil (2000); na USP, sendo os temas norteadores O Público e o Privado nas Políticas Públicas (2008) e Perspectivas e Desafios da Psicologia Política no Brasil: 10 anos da ABPP (2011); em Belo Horizonte – MG, na UFMG e, tendo por temas Identidade e Política (2002) e A Psicologia Política e a Nova Transição Democrática (2006); em Bauru – SP, na UNESP, com o tema A Questão Social no Brasil (2005) e em São Francisco de Paula – RS (2012), sendo Memória Política, História, Movimentos Sociais e Esfera Pública o tema desta edição, sediada na UERGS.

No âmbito das relações interinstitucionais, a ABPP participa como membro do Fórum de Entidades de Psicologia e da União Latino-Americana de Psicologia (ULAPSI), na qualidade de membro fundador, e da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO). Inclusive, nos anos que não há simpósio, a associação realiza seus encontros dentro da programação da ABRAPSO, sendo que as quatro primeiras diretorias foram eleitas em assembleias ocorridas dentro do encontro desta associação.

 Revista Psicologia Política

Em 2001, iniciou-se no Brasil a publicação da revista brasileira, mantida pela Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP), sob o nome de Psicologia Política. Essa publicação chega ao seu 13º aniversário e se distingue muito das temáticas abordadas pelas outras revistas. Entre os principais debates que ela tem acolhido em suas páginas encontram-se questões relativas ao preconceito e às diferentes formas de racismos e xenofobias, ações coletivas e movimentos sociais, violência coletiva e social, memória coletiva e socialização política, comportamento eleitoral, relações de poder, valores democráticos e autoritarismos, participação social e políticas públicas, relações de trabalho, análise de discursos e ideologias, de universos simbólicos e de práticas institucionais. De fato, a revista destaca ser uma “publicação dirigida ao campo de estudos interdisciplinar da Psicologia Política e tem como epicentro a reflexão sobre o comportamento político nas sociedades contemporâneas”.

Esse periódico nasce concomitantemente com a ABPP e seu primeiro número contém, como dito, algumas das conferências do I Simpósio Brasileiro de Psicologia Política, ocorrido em 2000, que foram transformadas em artigos. Os textos nela publicados apresentam-se como um importante ponto de intersecção entre a Psicologia e as Ciências Políticas. Do ponto de vista dos aportes teórico-metodológicos, vale ressaltar que ela tem se preocupado em garantir, como se verifica em sua web, um debate no qual:

nem as condições objetivas nem as subjetivas estejam ausentes, pelo contrário, estão sendo compreendidas, por diferentes abordagens teóricas, como co-determinantes, portanto, constituintes dos comportamentos coletivos, dos discursos, das ações sociais e das representações que constituem antagonismos políticos no campo social.

Num levantamento dos 10 primeiros anos de existência da RPP, identificamos que ela publicou 148 artigos em 20 fascículos, sendo 87,83% da produção de estudiosos brasileiros, 6,75% europeus, 2,02% de autores da América do Norte, 4,72% das Américas Central e do Sul.

A recente fundação da Associação Ibero Latino-americana de Psicologia Política em novembro de 2011 em Córdoba (Argentina). Fez com que a RPP passasse para um novo nível de responsabilidade, uma vez que ela passou a ser um veículo oficial também desta associação científica, no instante em que se abre um terceiro fascículo da revista para a organização coordenada entre os Editores da RPP e a Secretaria de Publicações da AILPP. Nesse sentido, a RPP passa a ser um veículo de integração das distintas visões hermenêuticas sobre a Psicologia Política e contribui para sua consolidação enquanto campo interdisciplinar de saber.

 Referências

ABPP. (2001). Linha Editorial. Psicologia Política, 1(1).

Freitas, M. F. Q. de & Novo, H. A. (2007). A guerreira Silvia Lane e suas lições de “paciência histórica”: Um depoimento emocionado. Psicologia & Sociedade, 19 (esp. 2), 31-36.

Furtado, O. (2000). Psicologia e Compromisso Social – Base Epistemológica de uma Psicologia Crítica. PSI – Revista de Psicologia Social e Institucional, 2(2), 217-229.

Martín-Baro, I. (1985). Acción e Ideología: Psicología Social desde Centroamérica. San Salvador: UCA Editores.

Martín-Baró, I. (1991). El Método en Psicología Política. Em M. Montero (Org.) Acción y Discurso: Problemas de Psicología Política en América Latina (pp. 39-56). Caracas: Panapo.

Silva, A. S. da. (2012). Psicologia Política, Políticas Públicas e Movimentos Sociais. Tese de Livre-Docência. Universidade de São Paulo.

Torres, A. R. R.; Lima, M. E. O. & Costa, J. B. da (Orgs.). (2005). A psicologia política na perspectiva psicossociológica: O estudo das atividades políticas. Goiânia: Editora da UCG.

[1] A Associação Brasileira de Psicologia Política foi fundada originalmente com a denominação “Sociedade Brasileira de Psicologia Política” durante o I Seminário Nacional de Psicologia Política realizado em São Paulo (SP) entre 29 e 31 de maio de 2000. Posteriormente, em assembleia realizada durante o III Simpósio Brasileiro de Psicologia Política realizado entre 13 e 16 de abril de 2005 em Bauru (SP), atendendo exigências decorrentes das mudanças no Código Civil da Constituição Brasileira, a denominação da entidade mudou para Associação Brasileira de Psicologia Política

[2] Texto publicado originalmente na Revista Psicologia Política, vol. 1,n. 1 em 2001.

[3] Trecho retirado do texto publicado originalmente na Revista Psicologia Política, vol. 12, n. 25 em 2012. Disponível integralmente em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2012000300004